Cambuci, Aclimação,
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O Instante Seguinte

De repente, num súbito acaso, sobra a terrível certeza de que algo sério aconteceu a você. Hoje, quando aconteceu comigo, me lembrei do livro do Eclesiastes, capítulo 9, versículo 12.
"O homem não sabe o seu tempo; assim como os peixes que se pescam com a rede maligna, e como os passarinhos que se prendem com o laço, assim se enlaçam também os filhos dos homens no dia mau, quando a calamidade se arremessa sobre eles de súbito"
Acreditemos ou não no Eclesiastes, assim é a vida da gente. E só nos damos conta de nossa fragilidade quando, como o cervo indefeso, somos surpreendidos pela mordida do leão. É a calamidade que se arremessa sobre nós, de súbito.
Então surge um sofrimento adicional, a dor que advém de se pensar "Ah, mas se eu não tivesse feito aquilo! Não tivesse ido, comido, permitido, descuidado, gritado, corrido, reagido, acelerado, brecado, desistido, falado, pedido, pulado, aceitado... Enfim...
É tarde.
Não há guarda-chuva que nos resguarde do acaso. Nunca sabemos quando e onde esse leão saltará faminto sobre nós.
Agora à tarde, na praia, brincando com os priminhos mais novos, corri, com a água pelas canelas, atrás da bola que numa mãozada de voley foi parar longe. Eu, um coroa, me surpreendi todo orgulhoso naquele disparo atlético, e numa fração de instante rememorei meus tempos de atleta, de 50 metros em 6 segundos, de 20 flexões com um só braço, 150 quilos no supino, chutes e socos velozes e certeiros no karate... E assim, como naqueles tempos de invencibilidade juvenil, agora eu me sentia poderoso, e o Daniel, com 25 anos a menos do que eu, estava ficando para trás!
Foi naquele breve instante de alegria e vaidade, com as pernas a toda, que meti o pé num buraco escondido sob a água. Um estalo que não só senti como ouvi, e um corpo que desaba. O meu.
Soube no mesmo instante, antes mesmo de completar a queda, familiarizado que sou com músculos, tendões e anatomia em geral, que eu havia rompido o tendão calcâneo, e que isso me complicaria profundamente a vida nos próximos meses...
Agora, aqui no hotel, já provisoriamente engessado no PS de São Sebastião, e me preparando para uma cirurgia que farei em São Paulo e que me deixará 60 dias de molho, fico refletindo a respeito do quanto é perigoso viver. Nunca se sabe o que nos aguarda naquele inimaginável instante seguinte, que nos espreita como um bicho, logo ali.


Cesar Cruz - é escritor e colaborador do JC&A
www.oscausosdocruz.blogspot.com