Eu vivo atrás de lembranças para compor minhas histórias, e, nessas buscas, às vezes me deparo com interessantes reminiscências. Algumas são faíscas que já se incendiaram, produzindo boas histórias, mas a maioria não vingou, talvez por não ter substância suficiente para isso. São essas efemeridades cotidianas, essas pequenas coisas, estilhaços da minha existência, que compartilho aqui com vocês.
A minha lembrança mais remota é a noite do meu aniversário de quatro anos. Precisamente 9 de setembro de 1974. Já apaguei as velinhas do bolo e meus tios já foram embora. Está ficando tarde e é dia de semana. Me encaminho para o quarto, mas me deparo com a porta do corredor fechada. Olho para o alto, estico o braço e dobro a maçaneta da porta.
Minha avó, Mi, bate uma gemada para mim. Assisto de perto, em pé ao lado da pia. A xícara está inclinada na mão dela, no ar, a quase noventa graus em relação ao chão. Os movimentos centrífugos da colher são ligeiros e incríveis. Vejo a gema amarela ser agitada em um louco turbilhão. Como não cai?, penso. Devo ter uns cinco anos.
Tenho sete anos agora. Olho nuvens de cima para baixo através da janelinha. Estamos indo, eu e minha mãe, para Minas Gerais passar férias na casa de uma amiga dela que mora na cidade de Sete Lagoas. Nunca viajei de avião e estou extasiado. Então mamãe me chama: "Cesar, olha o que a moça trouxe para você". Eu me viro e vejo a aeromoça sorridente com uma taça de manjar branco, minha sobremesa predileta.
Meu pai chegando em casa, tirando o aparelho auditivo e os óculos, e os colocando sobre o móvel. Olha pra mim e sorri, docemente.
Olho para meu joelho e me desespero. Minha mãe vai me matar. Não dói, mas escorre sangue canela abaixo, encharcando meia e tênis. Caí. Caí correndo atrás do André no pega-pega e dei com o joelho numa quina de pastilhas afiadas. O André percebe e volta, caminhando devagar, assustado. Pára e arregala os olhos pro meu joelho. Uma tampa de carne espessa e sanguinolenta está levantada, exibindo uma carne interna branca, assustadora.
Agora tenho 12 anos. O André, o mesmo André, me diz: Vai logo! Entra e fecha a porta! Entro e fecho a porta do quarto dele. O Paulinho já está lá. Paulinho é mais novo do que a gente, tem 9 anos. Todos estamos eufóricos. O André puxa a revista Playboy da Maria Zilda debaixo da cama. Abre a página central e mostra uma foto pra gente. Maria Zilda aparece nua, debruçada sobre um tronco de árvore.
Estou com minha primeira namorada, dentro do carro, na frente do Hospital Panamericano. Hoje é dia 23 de outubro de 1990, oito da noite. A fisioterapeuta acabou de subir para fazer a fisioterapia em meu pai, que está há 60 dias em coma naquela UTI. Levará quarenta minutos, como de costume, mas ela volta em cinco. Bate na janela do meu lado. Me assusto. Desço a janela e ouço: - Cesar, o médico pediu para você subir, quer falar com você. Não digo nada. Meu pai morreu, eu já sei. Abro a porta, passo por ela e entro no hospital. Cruzo os corredores frios e vazios com o corpo regelado, pensando em como vou fazer para contar para a minha mãe.
Tenho 22 anos e uma bela Honda CB 400 dourada, de 10 anos de uso, mas que adoro. Estou trafegando pela Ponte da Casa Verde, são umas quatro da tarde. O Santana azul me fecha e quase me derruba da moto. Estremecido pelo susto e furioso, me acalmo quando vejo o homem estender a mão para fora da janela, para o alto, em pedido de desculpas.
Voltando a infância. Estou deitado no banco de trás do nosso fusquinha, meio dormindo meio acordado. Meu corpo esticado não ocupa o banco inteiro. Estamos voltando de algum evento noturno na casa de alguém. Papai dirige e mamãe está ao seu lado. Vejo as luzes da cidade, invertidas, se alternarem pela janela. Ouço o motor roncar. Volto a dormir.
Cesar Cruz é escritor e morador do bairro do Cambuci
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