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O Rui

Oi, Cesar, tudo bem? Você se lembra da Vilma?
Cumprimentei as duas moças, mas só uma era minha conhecida. A outra, a tal Vilma, eu nunca tinha visto na vida, ou ao menos pensei não ter visto, já que ela parecia me conhecer muito bem.
Oi, Cesar, quanto tempo!
É terrível encontrar alguém que conhece você e você não tem a menor ideia de quem seja. Devo ter feito uma cara de besta, pois saiu em meu socorro imediatamente:
Sou a mulher do Rui!
Agora as duas mulheres sorriam e balançavam ligeiramente as cabeças para cima e para baixo, como se pensassem "Agora sim ele vai se lembrar!".
Rui, Rui, Rui... Não me lembrei. Para não piorar o vexame, resolvi disfarçar e, com um sorriso falso, disse:
Ah, sim, claro... Como vai você?
Meu reconhecimento fajuto não pareceu convencer muito, até por que não fiz a pergunta naturalmente esperada "e como vai o Rui?". Na verdade eu não poderia me arriscar a fazê-la. E se o tal Rui tivesse morrido? Ou lascado a cabeça numa quina e ficado bobo? Imaginei-a curvando a face e, com uma lágrima escapando pelo canto dum olho, perguntando com a voz trêmula "vo-você não soube, Cesar?". Muito arriscado!
Logo começou um papo sobre coisas de anos atrás, e ali pelo miolo daquela prosa foi que eu me escondi bem quietinho, à espera de uma luz, de uma palavra que me desse um norte, uma referência. Quem seria afinal de contas o bendito Rui? O Rui das minhas divagações surgiu sem rosto, como aqueles perfis do Orkut em que o dono da página não põe foto. O meu era assim, uma mera moldura de Rui, vazia por dentro, sem face, sem cores, cinza. "Quem é o tal Rui, meu Deus!?".
Eu iria me estrepar, era só uma questão de tempo. Em instantes a tal Vilma me faria alguma pergunta, ou o assunto poderia derivar para a vida do Rui e ficaria claro que eu não tinha a menor ideia de quem diabos era ele. Minha esperança é que ela cuspisse alguma frase mágica que destravaria a minha mente adormecida. "Putz, Claro! Grande Rui! Como eu pude me esquecer!"
De repente, um milagre! Algum santo protetor dos esquecidos resolveu vir em meu socorro. O truque do celular! Como eu não pensei nele antes? Seria a minha prancha de salvação, enfim.
- Com licença, senhoras, meu celular está vibrando. - anunciei.
Enfiei a mão no bolso, saquei o aparelho e levei-o ao ouvido.
- Alô!... Oi Carvalho, como vai?(nem me pergunte onde arrumei esse nome) As duas pararam de falar e ficaram me olhando, atentas.
O quê?! Mas como?... Não admito isso, Carvalho! É inaceitável e... - Fiquei uns segundos quieto, só murmurando, de cenho franzido, como se estivesse escutando uma explicação esdrúxula vinda do Carvalho. Então explodi, ao berros:
- Carvalho! Pare de falar e me ouça: vá até lá e diga que vou processá-los! Ouviu bem? Pro-ces-sá-los!!
Então, como se o Carvalho houvesse discordado da minha autoridade, fui imperativo e duro com ele:
Carvalho, não discuta comigo! Quero que comunique que os porei na cadeia! Todos eles! Estou indo praí agora mesmo! - "Pek!" Fechei o aparelho, bufando. As duas moças tinham engolido os sorrisos e me olhavam mudas, assustadas, de olhos arregalados.
Suspirei e sorri para as duas. Com a minha permissão, elas sorriram de volta, um par de sorrisos temerosos.
Acabava-se assim a minha sinuca de bico. Depois daquela discussão com o Carvalho, ninguém mais se lembraria que em alguma parte deste mundo havia um sujeito chamado Rui.
Meninas, mil desculpas. Problemas no trabalho...
Oh, sim, claro, claro... - disseram.
Dei um beijo no rosto de cada uma e parti com ares de quem carrega grandes responsabilidades. Enquanto eu ia me afastando, ocorreu-me que, para verdadeiramente consagrar a vitória da astúcia sobre a memória, ainda faltava um detalhe. Já distante, virei e chamei as moças, que partiam. Viraram-se para me olhar.
Vilma! Não esqueça de mandar um abração meu pro Rui!


Cesar Cruz é escritor e morador do bairro
cancruz@terra.com.br
www.oscausosdocruz.blogspot.com