Há pouco estive num velório da mãe de uma colega. Senhora idosa, noventa e tantos anos. Fui avisada por outra colega que agilizava em informar a todos sobre o evento. A morte é mais um evento social: avisar as pessoas, encomendar flores. Esta era a preocupação, uma coisa prática, ágil.
Ação no velório: o caixão fechado no meio da sala, pessoas sentadas conversando. O caixão lá. Ninguém se aproxima ou o fazem num gesto mecânico. Em alguns momentos até se esquecem porque estão lá, tal a importância de se fazer “um social”.
Fala-se de como foi e de como será o velório. Porém do falecido não se fala mais. Parece que já não existe. A história se apaga.
Isso me fez refletir sobre o sentido da vida e da urgência flutuante de rapidamente nos livrarmos das coisas incômodas. A morte passa a ser uma perda de tempo. Isso me faz lembrar uma música que diz “não, não posso parar, se eu paro eu penso, se eu penso eu choro”, como um mantra que nos embala, nos amortece.
Sentir passou a ser um verbo em desuso. Quando falo Sentir, estou me referindo àquele “incômodo” de nos fecharmos em nós mesmos e se deixar levar pelo efeito do acontecimento em nós. Sentir passou a ser uma perda de tempo. Precisamos estar o tempo todo em ação. “Não, não posso parar, se eu paro eu penso” como sendo um lugar de não produção, do nada, quando deveria ser o lugar de voltarmos à nossa humanidade, à nossa essência, de nos reconectar com o propósito de estar aqui. Parar por um instante, desacelerar, interromper o ritmo frenético em direção a um futuro, ser presente.
A morte de alguém sempre nos remete à nossa própria morte. Temos medo, negamos esta realidade e passamos a viver desenfreadamente na busca de dar um sentido, um valor à nossa existência e fazendo disso um ato competitivo para mostrar aos outros como nossa vida é legal, intensa, cheia de acontecimentos. Não se vive mais para si, se vive para mostrar para o outro como minha vida é legal. Então o morrer fica totalmente extirpado da consciência, até mesmo abortado, pois é Ela, a Morte, que nos coloca em contato com nossa impotência. Num mundo onde querer é poder, por mais que a medicina postergue este momento, o vivo só tem esta condição porque na outra ponta existe o morrer.
A Vida enquanto substantivo, é uma existência, um dom dado por Deus. Deixemo-nos por um momento de ser adjetivo, pelo menos de vez em quando, para sentir o Vivo nos percorrendo. Estar vivo não é só respirar, é poder sentir todas as forças do universo em nós. É ser parte do todo. É ser natureza viva: PENSAR – SENTIR – AGIR. Três ações que nos entregam ao todo.
Dolores Araújo, psicóloga clínica formativa. (doloresdear@bol.com.br)