Cambuci, Aclimação,
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e Liberdade
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Ocasião especial

Um homem muito rico, fabricante de vinho, se esmerou e produziu pequena porção de vinho, o melhor e mais puro até então por ele fabricado. Sua intenção era ingeri-lo junto aos seus queridos em ocasião especialíssima.
No ano seguinte sua filha formou-se em curso superior. Não julgou o abastado vinicultor que essa festa merecesse o vinho especial.
Algum tempo depois seu casamento foi comemorado como bodas de prata. Ainda agora não achou oportuno servir a raridade que descansava na sua adega.
Mais à frente, em grande solenidade foi agraciado com a medalha de cidadão emérito. Tampouco nessa ocasião julgou haver razão para servir o precioso vinho.
nenhuma das solenidades, festas, eventos e comemorações a que comparecia como destaque ou em que um dos seus se destacava, via razão para que vinho tão especial fosse consumido.
Sempre murmurava consigo: Só vou dispor do vinho quando puder somar numa comemoração a alegria, a felicidade e a fortuna.
E o tempo passando, o vinho envelhecendo e se aprimorando, até que um dia o homem muito rico e depositário do melhor vinho da região, morreu, e então os seus herdeiros com tão extraordinário vinho se embriagaram a mais não poder, para comemorar a herança sob o ritmo da alegria, da felicidade e da fortuna.
Isto é uma história, como todos podem perceber, mas é tão corriqueira a realidade copiar a ficção, que se torna comum perguntar qual a linha de divisa entre o real e o fictício.
No cotidiano e com certa frequência agimos como o abastado fabricante de vinho ao recusarmos compartir as nossas preciosidades, guardando-as zelosamente para ocasião especial sem, entretanto, reconhecê-la ou buscá-la.
Quem, até hoje, não aguardou o momento julgado oportuno para dar um bom conselho e nunca o fez? Quem não se esquiva em ouvir desafogos e perdoar deslizes? Quantos deixam não para melhor dia ou hora mais apropriada para amparar? É relativamente frequente os jornais noticiarem o falecimento deste ou daquele milionário, “incansável trabalhador” (que não encontrou disponibilidade de tempo para usufruir os bens); isto sem falar do auxílio que permanece embolorando nos armários e despensas.
É verdade que muitos já atingiram o estágio da solidariedade ao concederem o benefício quando movidos pela emoção dos apelos desenhadas nos meios de comunicação ou quando esta ou aquela tragédia envolve um grupo, uma cidade, um Estado, um País; mas longe se está da fraternidade que, na essência, é fazer o bem sem olhar a quem, ou seja sem olhar ao indivíduo, a instituição ou a religião.
Usa-se armazenar recursos para “doá-los” em ocasião especial, e essas ocasiões, para satisfação dos envolvidos, faz publicidade, menciona nomes, forja agradecimentos e assim por diante. É a sociedade abastada trocando esmola por elogios.
Não deve o cidadão consciente esperar que suas roupas fiquem puídas, seus sapatos com o solado furado e o alimento com prazo prescrito para destiná-los a alguém. A maioria das pessoas faz dos centros de assistência verdadeiros depósitos de detritos enviando-lhes objetos e peças que já não se prestam a mais nada.
Que se procure viver de tal forma que a ausência, mesmo que temporária, seja lamentada, nunca comemorada. Ademais, é salutar repartir o vinho enquanto ainda se pode sorvê-lo. Depois ... bem, depois a história é outra e o sabor já é de vinagre e de péssima qualidade...

Gérson Gomide
gergomide@gmail.com